Assembleia Geral da NICOLE Latin America debate desafios para a segurança jurídica no Gerenciamento de Áreas Contaminadas

Realizada nos dias 19 e 20 de agosto, em São Paulo, a Assembleia da rede reuniu cerca de 100 participantes, em formato híbrido. Representantes de indústrias, consultorias, órgãos ambientais, Ministério Público, escritórios de advocacia e universidades discutiram alguns dos principais desafios para ampliar a previsibilidade e a segurança jurídica no Gerenciamento de Áreas Contaminadas (GAC). A região de Jurubatuba e o caso Mantovani estiveram entre os principais estudos de caso dos dois dias.

Questões sobre responsabilidades individuais e coletivas em casos complexos de contaminação, além de planejamento, pesquisas e usos futuros possíveis para áreas gerenciadas estiveram em diálogo durante a Assembleia Geral da Rede NICOLE Latin America, que escolheu como fio condutor um dos desafios presentes na rotina de quem trabalha com áreas contaminadas no Brasil e na América Latina: a busca por maior segurança jurídica no GAC.

A abertura ficou a cargo de Ana Cristina Moeri, presidente do Instituto Ekos Brasil; Luciana da Costa Ferreira, secretária da Rede NICOLE Latin America; e Paloma Carvalho, presidente da rede. Carvalho destacou que a proposta do evento era justamente abrir espaço para diferentes perspectivas, sem uniformizar o debate.

A programação teve como destaque dois painéis dedicados a casos emblemáticos: Mantovani e Jurubatuba. “Em sinergia com a missão da Rede NICOLE de construir pontes entre diversos atores do Gerenciamento de Áreas Contaminadas, colocamos em diálogo, em ambos os painéis, contribuições de diferentes segmentos pois sabemos que, nesses casos, apenas a articulação entre lideranças técnicas e de interesses públicos e privados é capaz de contribuir com avanços em situações de contaminação, destacou Luciana Ferreira, secretária da rede.

Mantovani: um caso que acompanhou a evolução do GAC

No caso Mantovani, o debate mostrou como o Gerenciamento de Áreas Contaminadas e a própria legislação brasileira evoluíram em conjunto ao longo das últimas décadas. O histórico do caso atravessa diferentes momentos regulatórios e ajuda a compreender como critérios de responsabilização, avaliação de risco, remediação e perspectivas de uso futuro podem ser incorporados à gestão dessas áreas.

Rodrigo Sanches Garcia, do Ministério Público de São Paulo, trabalha no caso desde 2013. O promotor de justiça destacou que o modelo que se constituiu, consensual e de construção de aditivos, partiu de um grupo de empresas envolvidas no caso. De acordo com ele, elas olharam para o que era preciso ser feito, tecnicamente, e balizados pela CETESB, definiram critérios de participação e de ação.  

Glaucia Savin, da Savin, Paiva Advogados, também destacou a CETESB. “Hoje temos, graças ao desenvolvimento da CETESB, essa visão de perspectiva de uso futuro das áreas e de risco. Conseguimos desenhar alguns cenários, e é o que estamos fazendo agora”, afirmou.

Da direita para a esquerda: Fabio Patara, da FP Engenharia Ambiental; Rodrigo Sanches Garcia, do Ministério Público de São Paulo; Giovani Bruno Tomasoni, da Trench Rossi Watanabe; e Glaucia Savin, da Savin, Paiva Advogados. Mediação: Ana Moeri.

Jurubatuba: quando a contaminação ultrapassa os limites da propriedade

Se a legislação estabelece responsabilidades relacionadas à propriedade e à posse de um imóvel, a dinâmica ambiental nem sempre acompanha os limites registrados em uma matrícula.

Esse foi um dos pontos levantados por Flávio Linquevis, da Linquevis Advocacia Ambiental, durante o painel sobre “Passado, presente e futuro da região de Jurubatuba”.

“A lei fala quem é o detentor da propriedade, mas temos essa limitação imobiliária da matrícula. Em Jurubatuba, [o problema] não se restringe à matrícula do imóvel”, afirmou.

A observação evidencia um dos principais desafios jurídicos de casos territoriais complexos: contaminantes podem se deslocar pelo solo e pelas águas subterrâneas, conectando diferentes propriedades e tornando mais difícil tratar cada área de maneira totalmente independente.

No painel, os especialistas também abordaram a adoção de padrões e das mais diversas ferramentas possíveis para avançar na busca de novas soluções para o caso, que se estende por mais de duas décadas. André Oliveira, da CETESB, reforçou a importância de usar os instrumentos administrativos já disponíveis para otimizar o trabalho e conseguir responder, também, a esses problemas regionais, considerando todas as responsabilidades que a empresa pública estadual já acumula.

Da direita para a esquerda: André Oliveira, da CETESB; Flávio Linquevis, da Linquevis Advocacia Ambiental; e Reginaldo Bertolo, da USP, sob mediação de Ana Moeri.

Novos caminhos para áreas contaminadas

A segurança jurídica também está relacionada à possibilidade de estabelecer critérios claros para o encerramento de processos de gerenciamento e para a reutilização de áreas.

É possível tratar uma área contaminada não apenas como um passivo, mas como um possível ativo ambiental, em seu próximo ciclo de vida?

Suzana Kraus, da ERM, compartilhou dois casos de gerenciamento de áreas contaminadas nos quais o encerramento bem-sucedido teve como foco os usos futuros do terreno. “O encerramento sustentável define o próximo ciclo de vida de uma área”, afirmou.

A abordagem reforça uma transformação importante no GAC: além de investigar e remediar uma contaminação, torna-se necessário considerar o risco associado ao uso pretendido para aquele território e as condições necessárias para que ele possa receber novas funções.

Tecnologias de remediação também tiveram espaço na programação. Sérgio Veríssimo Filho, CEO da GreenSoil Group BR, apresentou as vantagens da remediação biológica, na qual a estimulação de bactérias nativas pode contribuir para biodegradar contaminantes, reduzir resíduos e emissões e otimizar prazos e recursos.

Outra contribuição relevante nesse aspecto foi o estudo de caso apresentado por Thiago Favaro, da EBP, que demonstrou a importância da biorremediação para resultados positivos no controle de uma pluma de PCE em migração para uma Área de Preservação Permanente (APP) situada imediatamente a jusante da área.

No mesmo caminho das inovações, María Carolina Parodi Dávila, da Universidad Tecnológica Metropolitana (UTEM), do Chile, apresentou a MABIOMET, plataforma integrada de gestão ambiental que reúne informações como tipo de contaminante, uso do solo e risco associado. E Natanna Melo, da UFPE, falou sobre o desenvolvimento e a avaliação de uma estratégia de bioaumentação com consórcio microbiano para casos específicos de remediação.

Confiança como estrutura

Se os desafios são técnicos, jurídicos, ambientais, urbanísticos e econômicos ao mesmo tempo, construir respostas exige diálogo entre atores que nem sempre partem dos mesmos interesses.

A Rede NICOLE, no Brasil e na América Latina, traz em sua trajetória um aprendizado acumulado na construção de acordos entre diferentes setores.

“Aprendemos nesses últimos anos que precisamos começar por objetivos semelhantes, tratar a confiança como estrutura, criar uma linguagem comum, separar a responsabilização individual da coletiva e ter um facilitador legítimo”, reforçou Ana Moeri.

Por isso, além de especialistas do setor privado, agentes públicos e pesquisadores acadêmicos, a rede trouxe ao debate profissionais ligados ao planejamento urbano. Guilherme Fatorelli Del’Arco, da SP Urbanismo, apresentou o Plano de Intervenção Urbana (PIU) para Jurubatuba, e Ivan Maglio, engenheiro especialista em planejamento urbano e ambiental, abordou a integração entre os diferentes instrumentos de planejamento e a necessidade de avançar da remediação para a regeneração ecossistêmica nas cidades.

Ao final dos dois dias, a Assembleia apontou que ampliar a segurança jurídica no Gerenciamento de Áreas Contaminadas não depende apenas de novas normas. Quando o desafio deixa de ser apenas técnico, construir pontes entre os diferentes setores torna-se essencial para transformar incertezas em caminhos possíveis para o gerenciamento e a regeneração dessas áreas.

Assembleia Geral 2023: Conquistas e próximos passos rumo à inovação

No último dia 23 de agosto, a Rede NICOLE Latina America reuniu seus membros de forma presencial na Assembleia Geral 2023 para compartilhar resultados e destacar os pilares para os próximos passos, rumo à inovação no setor do Gerenciamento de Áreas Contaminadas (GAC).

Durante a assembleia, tivemos a oportunidade de discutir ideias, compartilhar insights valiosos dos diferentes setores da Rede (Indústria, Academia e Serviços) e fortalecer nossa colaboração em busca de metas comuns.

No decorrer da manhã, um diálogo enriquecedor foi realizado envolvendo propostas e sugestões que direcionarão o futuro da nossa rede. Depois deste importante momento, seguimos para apresentações de impacto.

Eleições para vicê-presidência do Comitê Gestor 2023/2025

E finalizamos o período da manhã com o resultado das eleições para os cargos de vice-presidente dos setores NICOLE! Parabenizamos as eleitas e o eleito:

Paloma Carvalho (Corteva) – Setor Industrial

Juliana Freitas (Unifesp) – Setor Acadêmico

Pablo Yoshikawa (Certel) – Setor de Serviços

Fim da programação

Após o almoço, foram compartilhadas experiências bem-sucedidas de colaboração com universidades, indústrias e consultorias, contando com a participação de Gabriela Oliveira, Adriana Soriano, Admir Giachini, Marcio Schneider, Sasha Hart, Ariel Sanchez e Reginaldo Bertolo.

Na sequência, Sergejus Ustinov e seus parceiros Sasha Hart e Sander Eskes fizeram uma apresentação sobre o desenvolvimento de um projeto voltado a entender a contaminação por cádmio em plantações de cacau na América Latina.

Por fim, encerramos a programação com o lançamento das Publicações NICOLE Latin America sobre MCA e Economia Circular, e com um coquetel regado de ótimas companhias.

Agradecemos imensamente a participação de todos e todas!

Nos vemos no próximo evento NICOLE.

Confira alguns cliques:

Impulsionando o Gerenciamento de Áreas Contaminadas por com Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina

Por Sergio Luis Ferreira, vice-presidente do setor industrial NICOLE Latin America.

A remediação sustentável é essencial para a recuperação de áreas contaminadas e a proteção do meio ambiente. À medida que enfrentamos desafios cada vez mais complexos, a adoção de tecnologias inovadoras, como a inteligência artificial (IA) e o aprendizado de máquina, pode melhorar significativamente a eficiência e a eficácia dos processos de remediação. Vamos explorar como a IA e o aprendizado de máquina estão revolucionando a abordagem da remediação sustentável e os benefícios que essas tecnologias podem oferecer.

A Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina podem ser aplicadas na Remediação Sustentável das seguintes formas:

Otimização de processos de remediação

Algoritmos de aprendizado de máquina podem analisar grandes conjuntos de dados para identificar padrões e tendências que não seriam facilmente detectáveis ​​por seres humanos. Ao aplicar essas técnicas aos dados coletados durante a remediação, os profissionais podem otimizar os processos de tratamento, ajustando fatores como o tempo de aplicação e a dosagem de agentes químicos ou biológicos.

Monitoramento e previsão de contaminação

A IA pode ser usada para desenvolver modelos preditivos que ajudam a prever a evolução da contaminação no tempo e no espaço. Esses modelos podem ser fundamentais para priorizar áreas de intervenção, avaliar riscos e definir estratégias de gerenciamento a longo prazo.

Detecção e identificação de poluentes

Técnicas de aprendizado de máquina podem ser aplicadas na análise de dados de sensores e equipamentos de monitoramento ambiental para detectar e identificar poluentes com maior precisão e rapidez. Isso permite uma resposta mais rápida e eficiente aos eventos de contaminação.

Avaliação de risco e tomada de decisão

Algoritmos de IA podem processar informações complexas e variáveis ​​para apoiar a avaliação de riscos ecológicos e humanos, aplicando de forma muito produtiva as mais diversas metodologias de análises de riscos, incluindo até mesmo os HAZOPs de projetos para remediação. Com base nessa análise, a IA pode sugerir abordagens de remediação adequadas, levando em consideração os impactos ambientais, sociais e econômicos.

Portanto, a inteligência artificial e o aprendizado de máquina têm um enorme potencial para revolucionar a remediação sustentável de áreas contaminadas. Ao aproveitar essas tecnologias, podemos melhorar a eficiência, a eficácia e a precisão dos processos de remediação, o que, por sua vez, beneficia o meio ambiente, a saúde humana e as comunidades afetadas. 

À medida que continuamos a enfrentar os desafios de eventuais contaminações, a IA e o aprendizado de máquina serão ferramentas cada vez mais valiosas na busca por um futuro mais limpo e sustentável e com maior produtividade.

Como sua empresa pode se beneficiar com a Lei do Bem?

Benefícios fiscais e incentivo à inovação e tecnologia: a Lei 11.196/05, conhecida como ‘Lei do Bem’, tem como principal objetivo o fomento à inovação nas empresas, concedendo benefícios fiscais àquelas que inserem novas tecnologias, técnicas e/ou equipamentos em seus processos, tornando-os mais eficientes ou fazendo com que seus produtos tenham melhor qualidade.

O benefício é concedido por meio de autodeclaração, podendo haver posterior solicitação, por parte dos órgãos federais, de comprovação das informações declaradas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

Portanto, é bastante recomendado que se firme parcerias entre a empresa e instituições de ensino e pesquisa, não apenas para aumentar a legitimidade (e, consequentemente, a segurança jurídica) do projeto, como também uma forma de ampliar as possibilidades quanto ao foco da pesquisa e ao acesso a laboratórios e equipamentos necessários, além de envolver no projeto especialistas no tema pesquisado.

O conceito de “inovação” para a chamada Lei do Bem difere do conceito tradicional, sendo que inovação para a lei é o que é novo para a empresa, para o CNPJ, não sendo necessariamente novo no mundo ou no mercado, podendo englobar projetos de diferentes características e com foco em diferentes setores (inclusive, incorporando projetos de remediação de áreas contaminadas), desde que resultem em melhorias no processo ou produto da empresa.

A NICOLE, como criadora de pontes entre os setores, pode ajudar seus membros a conhecer mais sobre esses benefícios e facilitar o contato entre indústrias e instituições de ensino e pesquisa! Em breve, traremos novidades quanto a esse tema.